Maçonaria Desvendada – Reconquistar a Tradição
May 27th, 2010 | By admin | Category: Destaque, Em Português, Grupos de Estudos, Livros, Maçonaria
Excerto do livro “A Maçonaria Desvendada – Reconquistar a Tradição”, por Luis de Matos:
A Maçonaria original era harmoniosa. Um lugar de arte e espiritualidade, de saber pouco dado a decorações supérfluas e fácil de definir no seu propósito. Contudo os sucessivos restauros e acrescentos tornaram-na num edifício híbrido. Recordação longínqua de um conceito original pelo exterior, mas desfigurada interiormente por acrescentos sucessivos ao gosto duvidoso e passageiro das várias épocas que dela se serviram para tudo menos dar Glória a Deus.
A Maçonaria travestiu-se em muitas Maçonarias diferentes ao longo dos séculos. Fez papel de heroína e vilã. Libertou escravos. Fundou nações. Reclamou liberdades e direitos cívicos. Sim. Mas procurou liquidar a religião em nome do progresso. Defendeu os fracos e os aflitos, é certo, mas ajudou a manter no poder os já poderosos. A história da Maçonaria é uma história de contradições, de paradoxos aparentemente irresolúveis. Todo bem e todo o mal num só lugar. Nem mais nem menos do que qualquer outra instituição humana. Sujeita às paixões e temperamento dos homens.
Na concepção daqueles que redigiram os rituais e catecismos originais só havia uma Maçonaria. Tudo o que se desviava ética, espiritual, estrutural e filosoficamente dos princípios fundamentais dessa Maçonaria era uma fantasia criada por ignorantes da Arte Real. Dentro destes limites [simbólicos] fazia-se Maçonaria. Fora deles estava o mundo Profano.
Contudo, a Maçonaria é hoje plural, feita de visões múltiplas e inconstante nos seus princípios, estrutura e filosofia, com poucas excepções. Sob o mesmo nome “Maçonaria” subsistem organizações exclusivamente masculinas, exclusivamente femininas, ou mistas. Há organizações que requerem absolutamente que os seus membros sejam crentes num Criador, e outras que são manifestamente laicas ou mesmo militantemente agnósticas quando não anticlericais, sendo que todas se intitulam Maçonaria da mesma forma. Há as que têm o Livro Sagrado no altar e as que não o têm. Há as Maçonarias que recebem clérigos no seu seio e há as que querem enforcar o último monarca nas tripas do último padre. Há aquelas que proíbem discussões de política em Loja e as outras que não só a fomentam, como fazem das Lojas verdadeiros pilares de determinados partidos políticos (em muitos países) e ambas as concepções (opostas entre si) são alegadamente Maçonaria.
Hoje, a Maçonaria é o que os rituais e catecismos originais dizem que é. Pura. Original. Tradicional. E ao mesmo tempo é a negação desses mesmos textos históricos. É e não é. É uma Fraternidade e não é. É um grupo de interesses e não é. É uma associação que visa praticar a beneficência e não é. É um partido político e não é. Tem fundamento religioso e não tem. Tem rituais transcendentes e não tem. É uma sociedade espiritual e não é. É uma sociedade iniciática e não é. É um clube privado e não é. É secreta e não é. É discreta e não é. Assim, ao compor em si ser e não ser, verdade e não verdade, tradição e traição, supõe ser “Universal”, quando não passa de Universátil. Como um canivete Suíço, dá para tudo. Ao negar a sua essência primordial e ao colocar no mesmo plano concepções antagónicas e inconciliáveis de si mesma – entre elas a negação de uma espiritualidade profunda e latente e uma raiz religiosa incontornável – torna-se incapaz de libertar o Homem da prisão da carne e condena o Maçon à deriva eterna nas ondas hipnóticas e auto-indulgentes da razão pura. A Maçonaria Universátil, ao querer ser tudo, terminou não sendo nada.
O QUE É A MAÇONARIA
A imagem pública da Maçonaria junto à sociedade civil em alguns países é hoje ruinosa. Devemo-lo a nós mesmos – Maçons – ao aceitarmos no nosso seio homens e organizações a que insistimos em chamar “irmãos” e “maçonaria”, permitindo-lhes “representar” a Ordem. Tradição e traição convivem no mesmo espaço fraternal. São Lojas, grupos de amigos e grupos de interesse particular, areópagos de negócios escuros, aldrabões sem escrúpulos e tiranos de cátedra que usam a Ordem ciclicamente como um guardanapo reciclável em que limpam as suas nojentas bocas depois de mergulharem os ávidos focinhos numa pocilga de farelos fraternais. Enquanto os verdadeiros Maçons estiverem ausentes, e deixarem que o banquete se faça em seu nome, não podem queixar-se de ser mal entendidos pelos media, de ser envolvidos em escândalos, de ter o seu nome arrastado pela lama, de ser confundidos com animais e bandidos.
A Maçonaria é uma sociedade extremamente respeitada nos países nórdicos. Tem um papel importante nas sociedades anglo-saxónicas e entre os seus membros contam-se inúmeros líderes, homens de ciência, da arte e do pensamento. Nos países onde imperam formas de governo totalitário a Maçonaria foi sempre perseguida por ser entendida como subversiva, capaz de gerar livres-pensadores, empreendedores e líderes não-conformistas.
Homens como o astronauta “Buzz” Aldrin, os actores Peter Sellers, John Wayne, Clark Gable e o nosso Raul Solnado, o ilusionista Harry Houdini, os pintores Lima de Freitas e Grant Wood, o cientista Benjamin Franklin, o psicólogo Carl Jung, monarcas como Edward VII, políticos como Churchill e presidentes como Washington, Roosevelt, Truman e tantos outros nos Estados Unidos, nada podem ter de comum com golpistas, mafiosos e marginais que frequentemente se dizem membros da nossa Augusta Ordem, apenas porque um grupo incaracterístico, desprovido de qualquer legitimidade e sem qualquer reconhecimento no mundo Maçónico, se arrogou o poder de chamar-se “maçonaria” e, na persecução de inconfessáveis fantasias, “iniciou” tais celerados.
Como pôde [a Maçonaria], depois de nascer como um conceito bem definido e limitado, desintegrar-se, de tal modo que acabou dando lugar a tantas denominações contraditórias de si mesma. Cada reforma profunda no pensamento e na sociedade veio a reflectir-se na maneira como alguns grupos entendem a Maçonaria. Aqueles que buscam uma prática baseada na Tradição, antiga e inalterada, são vistos como conservadores e retrógrados. Os progressistas são os que deitam ao lixo a tela sempre que a moldura está fora de moda. Foi o iluminismo Francês que trouxe alterações profundas à forma como o homem vê a sociedade. A Maçonaria não ficou indiferente. A revolução industrial veio dar um lugar central ao Império Britânico e aos novos Estados Unidos. A Maçonaria não ficou indiferente. O pensamento laico e anti-religioso instalou-se na sociedade Francesa do final do século XIX. A Maçonaria não ficou indiferente. Cada nova linha de pensamento Maçónico fez um esforço muito grande para se impor como dominante e apagar a memória das anteriores. As Grandes Lojas (geralmente de raiz deísta) e os Grandes Orientes (geralmente com uma prática mais laica) personificaram posturas distintas de intervir na sociedade. No virar para o século XX a Maçonaria em países como a Itália, Espanha ou Portugal viu-se envolvida em crimes e perseguições políticas e religiosas. Fomentou grupos armados e fez das suas Lojas o suporte de células Carbonárias que viriam a granjear triste fama.
Não podemos chamar “maçonaria” a tudo o que diz ser Maçonaria. A Maçonaria hoje não tem um papel na sociedade porque a Maçonaria actual não faz falta à sociedade actual. O tempo criou outras formas de fazer o mesmo. A Maçonaria esqueceu-se do que é (uma via iniciática) e procura viver o que não é. E no que não é, não encontra o papel de vulto a que aspira.
A Maçonaria é uma sociedade filantrópica, caritativa e beneficente?
Não. Para fazer a filantropia não são necessários templos, rituais, passagens de grau, nomes simbólicos, medalhas ou aventais. Sem nada disto, há organizações e clubes com maiores e mais duradouras realizações no capítulo filantrópico e beneficente do que a Maçonaria.
A Maçonaria é uma escola de doutrinamento moral e espiritual do indivíduo?
Não, porque se fosse precisava de uma doutrina e não existe doutrina Maçónica. O que existe é um conjunto de rituais e símbolos (muito diferentes e díspares com um número de graus que não é constante em nenhum das centenas de ritos praticados no mundo) a que diferentes autores dão diferentes interpretações, chegando muitas vezes a ser contrárias entre si. Não nos conseguimos entender nem sobre a questão básica do Grande Arquitecto (já que há obediências que o excluem), como vamos então ensinar, como numa escola, preceitos morais que não são absolutos e são interpretados de maneira diferente por Maçons de religião diferente e de base cultural distinta?
A Maçonaria é uma sociedade secreta?
Não. Os rituais, cerimónias, palavras secretas, nomes de membros e interpretações díspares sobre a sua história e património simbólico vendem-se em livrarias de todo o mundo.
A Maçonaria é um lobby?
Há Maçons em altos cargos da Administração Pública e do Estado. Há quase sempre Maçons no governo, seja ele qual for. Há Maçons em instituições Financeiras privadas e em grandes empresas. Há Maçons bem colocados em Universidades, na Magistratura, nas polícias e nos jornais. Contam-se pelos dedos as vezes em que a Maçonaria – e não Maçons individuais, agrupados em volta de um “mentor” – ganhou algum tipo de influência ou plataforma para melhor defender os seus princípios com a ascensão social e profissional destes membros. Maçons que atingiram lugares de destaque [na sociedade] escondem tanto quanto podem a sua “vergonhosa” condição e muitas vezes negam-na frontalmente. Afastam-se das Lojas, deixam de frequentar a Maçonaria com a mesma assiduidade e, à parte os amigos mais próximos que acabam por recolher benefícios materiais [da sua ascensão social], só regressam ao contacto com a Maçonaria quando o ambiente profissional muda e começam a sentir o chão a fugir debaixo dos pés. Há – activamente – na Maçonaria em Portugal mais homens ex-influentes que continuam a viver à sombra de glórias passadas do que actuais luminárias da vida pública, política e empresarial.
Não posso deixar de olhar os meus recortes de jornal [dos mais conhecidos escândalos que envolveram a Maçonaria] e continuar a ver homens, grupos de homens e projectos de homem como protagonistas das histórias e muito pouca Maçonaria na sua actuação. Os títulos chamam-lhes Maçons. Podiam dizer com a mesma legitimidade que eram advogados, arquitectos, membros do clube do livro ou adeptos de um determinado clube de futebol.
A Maçonaria é uma religião?
Não. Não tem dogmas, não tem doutrina e não confere sacramentos.
A Maçonaria é uma corporação ou uma guilda?
Não. Embora descenda das corporações de pedreiros medievais e mantenha uma prática de companhia (ou de companheirismo), perdeu a dimensão profissional que caracteriza a corporação. Não protege os direitos profissionais dos seus membros, não regula o exercício da sua profissão e não tem o reconhecimento do poder público para agir como um grupo social e profissional autónomo.
Então o que é a Maçonaria? Para que serve, que outras sociedades não sirvam? O que é que a torna única?
A Maçonaria é uma via iniciática. Uma das que preservou as chaves essenciais da Iniciação no Ocidente.
A Iniciação obriga o Homem a trabalhar as suas imperfeições e ambições, confrontando-o com elas. Para fazer o percurso iniciático Maçónico de principio a fim, é preciso trabalhar aspectos pessoais e espirituais como a paciência, saber lidar com a traição ou o desengano, saber exercer os cargos que nos são oferecidos, humildemente servindo a Loja e/ou a Ordem e não como degraus de uma escada de acesso ao êxito. As instruções para uso dos Aprendizes Maçons do Rito Escocês Rectificado, documento datado do século XVIII e hoje conservado na Biblioteca de Lyon, diz:
“Pergunta: O que é a Maçonaria?
Resposta: É uma escola de sabedoria e virtude que conduz ao Templo da Verdade, sob o véu dos símbolos, aqueles que a amam e a desejam.”
A Maçonaria é então uma escola de sabedoria e virtude. Sempre que deixe de ser uma escola de sabedoria e virtude e mude o seu curriculum para ensinar as fraquezas da personalidade, deixa de ser Maçonaria. Sempre que se recuse a ensinar e pretenda ser um simples fórum de reflexão, cuja essência filosófica varia ao sabor das modas e dos conceitos contemporâneos, deixa de ser Maçonaria.
A sabedoria e virtude que a Maçonaria ensina destinam-se a conduzir o Maçon ao Templo da Verdade. Sem denominações religiosas. O Templo da Verdade é simbolicamente o local metafísico onde a percepção da verdade desaparece, a distorção causada pela verdade individual cessa e a Verdade Indivisível, como ela É, brilha em todo o seu esplendor. Inconfundível, indistorcível, inefável.
Para ensinar a sabedoria e a virtude, a Maçonaria usa o véu dos símbolos. Os símbolos são as regras da linguagem metafísica, do código linguístico partilhado por todos os seus estudantes – no caso da Maçonaria, essa linguagem é a sua a matriz judaico-cristã.
A Maçonaria é então uma Escola Iniciática. Conduz ao Templo do Saber aqueles que se deixam encantar por lendas e símbolos, pela Arte Real, pelas alegorias e rituais que celebram a beleza da vida, o papel do Ser Humano no mundo que o envolve, que deixam cada um descobrir a força da cadeia infindável da fraternidade e do serviço aos valores mais elevados, dominando os impulsos que ainda fazem de muitos de nós escravos dos nossos erros.
Construir o Templo de Salomão é uma apropriada parábola, compreensível ainda hoje. Melhorar o nosso entorno pela melhora das nossas acções é igualmente um apelo acessível a todos. Amar as nossas Tradições, conhecer a História e a Filosofia é não obrigar a Humanidade a começar de novo quando cada geração sucede à anterior sobre a Terra.
Deste modo, a fraternidade, o estudo discreto, a prática reservada dos rituais e o acesso restrito às discussões entre pessoas que se sentem em sintonia entre si, mas também a beneficência, a intervenção social e mesmo (porque não) política, o fomento da reflexão pública sobre temas vitais à sociedade moderna, entre muitas outras coisas, podem ser frutos da Maçonaria. Não são fins em si mesmos. Quando a Maçonaria se esgota em procurar ser apenas um clube de reflexão, um interventor político ou um directório de contactos úteis, mata a essência. Ela pode intervir, organizar e inspirar sempre que faça o “trabalho de casa”: a Iniciação. Quem não experimentou a Paz interior é incapaz de levar Paz aos outros.
A Iniciação é, portanto, o processo proposto pela Maçonaria. A Iniciação – entender e efectuar aquele regresso ao estado Primordial relatado por tantos Mitos – manter viva a criança que há em nós, amar a liberdade e a imaginação, ter compaixão pelo outro, sem “mas” ou “poréns”, e fazer melhor cada dia, integrando-nos perfeitamente nessa Obra imensa que é a Criação, quer a nível puramente material, mas igualmente no plano espiritual, é o plano de estudos estimulante que a Maçonaria propõe. A Iniciação é a elevação da consciência individual, quando esta atinge a realização da Unidade entre todas as partes do Universo. Nesse Templo do Saber deixa de haver “eu”, e “tu”. Há só Ser. Reintegração num estado inicial de plenitude. Iniciático. A Iniciação.
E a Iniciação não é para todos. Logo, a Maçonaria não é para todos.
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“A Maçonaria Desvendada” Lançado em Lisboa
“A Maçonaria Desvendada” – Entrevista – Parte 1 de 9
“A Maçonaria Desvendada” – Entrevista – Parte 2 de 9
GRUPO DE ESTUDOS MAÇÓNICOS




Aguardo anciosamente o lançamento do Livro.
Um bem haja ao Luis de Matos.
Eu também aguardo pacientemente tão doutas palavras!
Abraço
Excelente post.
O site já está marcado nos Favoritos.
Parabéns.
Abraço
Há dois anos que aguardo o livro
Estou muito curioso em ler o “teu livro” sobre “maçonaria”…
Por terras de Portugal, pena tenho que aquilo em que a maçonaria se tornou, seja apenas o “escarrador da Franco-Maçonaria”, ou seja o devoluto transverso do “Poder Temporal”, isto, maioritaria e notoriamente pela postura “Verdadeira” de alguns que se dizem “maçons” ( a minha Querida esposa, chama-lhes, que nem ginjas, “Aventalesmas”)
Claro está e fica que “Maçonaria Celeste e Universal”, são outra conversa, a representante do “Poder Espiritual”, sem hipótese de colidir, no metro, à porta de casa, ao telefone (com escutas), com essa canalha de velhinhos (e outros menos vividos), com a indesejável e constante presença dessas “malditas criaturas” (prefiro moscas!… mesmo que sejam muitas…);
Aproveito para te anunciar que o primeiro livro dedicado a essas verdades “inacreditaveis”, está escrito e em negociação com uma produtora (não Nacional, como é óbvio…) para uma produção televisiva… tem lá de tudo: Manuel Lourico Pica, Xico Sifrões, Zé Manel Asne, Maria da Ponte, Luis Comichão, Manas Triptizol, etc…
Depois mando-te um exemplar, que é lindo com o seu titúlo: “Avental fora da Cuzinha, Pólvoras e Digestivos”.
Vai Um Grande Abraço e Felicidades para o teu “Tomo”, que queremos ser o 1º da “Saga”
Shemramforash!