O Natal na Tradição Iniciática
Dec 15th, 2011 | By Luis Matos | Category: Astrologia, Cabala, Cristianismo, Em Português, Lead, Teosofia, Tertúlia Hermética
Estamos chegados a mais um Natal. Como sempre, uma delicada atmosfera de poesia paira sobre tudo e todos. Os homens, até os mais endurecidos, adoçam a sua agressividade e retraem o eu egoísmo. Toda a gente se sente invadida por esse súbito despertar do que se tem de mais generoso: a consideração pelos outros, o carinho com os velhos, os indigentes e os solitários, a ternura transbordante pelas crianças.
E todos os anos a tradição se repete e o fenómeno deste derrame de simpatia, de amizade e até de Amor e Altruísmo dura desde há cerca de dois mil anos. É o júbilo e a fraternidade que inundam o coração da humanidade cristã.
Mas o que explica realmente este mistério? Porque não se trata somente de comemorar o aniversário do nascimento de Jesus, nem mesmo a comemoração de um aniversário, até a de um Salvador como Jesus Cristo, poderia justificar essa emoção geral, algo indefinida, mas profunda e real, em que mergulhamos à medida que se aproxima o dia 25 do último mês do calendário.
Ao debruçarmo-nos neste momento sobre a história de Jesus recordamos que a Sua Vida é regulada por ciclos bem definidos que representam o drama objectivo e concreto, e não apenas simbólico, de certos aspectos de carácter cósmico.
A tradição configura na vida de Jesus cinco etapas principais:
-O Nascimento em Belém
-O Baptismo no Jordão
-A Transfiguração no Monte Carmelo
-A Crucificação no Gólgota
-A sua Ressurreição e Ascensão.
Neste estudo vamos cingir-nos ao tema pondo em relevo as notas mais salientes do seu Nascimento.
Segundo a tradição cristã, Jesus nasceu ás zero horas do dia 25 de Dezembro. Mas a data de nascimento de Jesus tem, de há muito, constituído problemática de discussão por parte de muitos e autorizados exegetas. Terá, de facto, Jesus nascido a 25 de Dezembro?
Hoje sabemos que não, ou melhor, ignoramos totalmente a data de nascimento de Jesus. Além de uma menção, eventualmente apócrifa, de Josefo, historiador judeu do primeiro século, não existem quaisquer documentos, nem fontes históricas, acerca da sua existência e da sua vida.
A data de nascimento de Jesus foi variando conforme os tempos e as seitas cristãs. Diz-se que houve, pelo menos, cento e trinta e seis datas diferentes atribuídas ao nascimento de Jesus. Só em 337 d.C. o Papa Júlio encerrou em definitivo o assunto, estabelecendo canonicamente o dia 25 de Dezembro como o nascimento de Jesus. Antes disso, durante cerca de quatrocentos anos, portanto, a celebração do Natal fazia-se a 6 de Janeiro, data da visita dos Magos a Belém, a festa da Epifania, não de natividade de Jesus.
Crisóstomo afirmava no ano de 390 d.C.: “Neste dia (25 de Dezembro) também em Roma foi fixado, ultimamente, o nascimento de Cristo, de modo que, enquanto os pagãos celebravam as suas cerimónias, os cristãos pudessem realizar os seus ritos sem serem molestados”.
Crisóstomo revela-nos que o motivo inicial da fixação da data de 25 de Dezembro foi de ordem essencialmente pragmática, isto é, a de permitir que os cristãos celebrassem as suas festas sem serem molestados pelas autoridades pagãs. Mas existe um indicativo precioso no texto de Crisóstomo: a menção à festa pagã efectuada nesta data de todos os anos. Essa festividade era a Brumália, em honra de Baco. Baco, tal como Jesus, era cultuado pelos pagãos como um Salvador, um deus solar.
A civilização Mediterrânica tinha sido viveiro de numerosos cultos e rituais pagãos. Alguns séculos antes de Cristo, e mesmo coevos dos tempos de Jesus, abundavam os templos e as aras dedicadas aos deuses tidos por solares, tais como Hércules entre os romanos, Apolo para os gregos, Adónis para os Sírios, e Osíris para os egípcios, Baal ou Astarte para os Babilónios e Cartagineses, Mithra para os Persas.
E coisa curiosa, não obstante as diferenças sociopolíticas, raciais e culturais desses povos, os cerimoniais eram similares e as linhas mestras das vidas dos seus heróis coincidentes. Assim, podemos verificar, que todos eles nasceram no dia de Natal, ou ,nos dias próximos; todos nasceram de uma mãe virgem; todos vieram à luz numa caverna ou gruta; foram considerados Salvadores e Meditadores; consagravam-se ao Serviço da Humanidade e, finalmente, desceram aos infernos, aos inferiores, ao mundo interior.
Ora, como afirma Annie Besant, os Salvadores, os deuses solares nascem, segundo a tradição e mitologia, no solstício de Inverno, logo após o dia mais curto do ano, quando o sol inicia o seu crescimento até à plenitude do solstício de Verão, em Junho.
A data do solstício de Inverno foi sempre uma data remarcável. Povos, como os germanos, organizavam grandes festejos em sua honra. Os sacerdotes Druidas utilizavam ramos de visco para celebrarem o sol -nascente, o nascituro. Em vários cultos da época de Jesus, sobressaía, sem dúvida, o poderoso culto a Mithra, o deus solar. De origem iraniana, havia-se infiltrado por todo império romano devido à acção das suas tropas. Mithra, também ele um deus salvador, havia nascido em 25 de Dezembro, após o solstício de Inverno, quando os dias começam a crescer, dia em que o povo celebrava o renascimento do sol, o “Natalis Solis”.
A entrada do sol no signo de Capricórnio permitia relacionar o mito solar, difundido e aceite pelo povo, com a figura de Jesus, inculcando na tradição que Ele nasceu como filho de Deus, dadas as relações de analogia com a natividade de Mithra. E foi por isso que Jesus passou a ser denominado “O Sol da Rectidão”, para que se substituísse a Mithra, o deus pagão da luz, chamado então “Sol Invictus”.
Não é difícil compreendermos agora os eventos atribuídos ao nascimento de Jesus, como muitos outros ao longo da Sua estadia entre os homens, têm carácter simbólico, representam uma dramatização, uma homologia com acontecimentos dos mais profundo significado cósmico.
Jesus nasce em Belém, filho de uma Virgem, num estábulo, ou melhor, numa gruta. Ele é adorado pelos reis magos. Vamos analisar sucessivamente os simbolismos. destes aspectos.
Belém significa literalmente “casa do pão” e cabalísticamente “casa de Deus” ou Templo de Deus. A palavra Belém é formada por duas letras hebraicas, Beth e Aleph. Beth, a raiz do termo, traduz-se também por boca, entendida esta como santuário ou órgão da Palavra ou Verbo que conduz aos trinta e dois portais da sabedoria. E não é por acaso que a nossa boca possui trinta e dois dentes…
Jesus nasce duma Virgem. Mas todos os deuses solares, como vimos, nascem de virgens. A maioria dos credos da antiguidade possui as suas imaculadas, as sua Marias ou Mayas. O nome de Maria provém de Mare, que significa mar, simbolicamente “a grande água”, a grande ilusão. Vemos, por exemplo, que, entre os brasileiros a deusa de Yemanjá é a mãe da água, o próprio mar divinizado, como diria José Henrique de Sousa. A Virgem Maria, ela mesma, é conhecida como a “Stela Maris”, a estrela do mar. A mãe de Mithra, o grande deus solar, chamava-se Aredvi e Aredvi, esposa do deus primordial, era virgem e imaculada. A mãe de Yeseus Krishna, que viveu 3500 anos antes de Jesus, Devaki, era virgem e imaculada. De passo, repare-se na extraordinária semelhança entre os nomes Yeseus Krishna e Jesus Cristo.
Não pode constituir pura casualidade que tantas virgens-mães e deusas da antiguidade tivessem nomes idênticos: a mãe de Baco era Myrra; a mãe de Hermes ou Mercúrio chamava-se Myrra ou Maya; Adonis teve como mãe a Myrra; Buda nasceu de Maya. E todos estes, nomes, Myrra, Maya ou Mare são o mesmo que Maria.
Quadros e estátuas representando a “Rainha do Céu” de pé sobre a lua crescente, com a cabeça circundada por doze estrelas, são comuns na iconografia e nos templos cristãos, tanto quanto nos pagãos. Isis, a deusa egípcia, é representada de pé, sobre a meia-lua crescente, coroada de estrelas, acalentando em seus braços o seu Filho Horus. A semelhança é flagrante. Mas Istar, a deusa babilónica, também surge representada com o seu filho Tammuz sobre os joelhos e com a cabeça coroada de estrelas. Devaki mantém nos seus braços o divino Krishna.
Que concluir daqui? Annie Besant levanta-nos um pouco do véu sugerindo-nos uma interpretação astrológica: o filho de Deus, o avatara solar, o Messias diremos nós, nasce sempre de uma virgem porque a 24deDezembro o signo de Virgo, Virgem, ascende no horizonte. O simbolismo é evidente. Virgo permanece como signo ascendente, após ter dado à luz o seu filho sol. Como Virgem Celestial, permanece inalterável, imaculada, quando o sol surge, dela, nos céus. Assim, Jesus, o Messias, tal como o sol nascente, nasce criança débil e frágil – como os dias que iniciam timidamente o seu crescimento – duma Virgem Imaculada e Pura.

Por agora vamos debruçar-nos sobre essa bela cena em que o menino-deus figura como personagem central, o Presépio. Os baixos-relevos iniciais em que figura o boi e o asno datam do fim do séc. IV. Compreende-se. É por essa altura que o cristianismo se toma religião do Império. Toda a prática dos mistérios pagãos havia sido interdita, quer por Valentino em 372, quer por Teodoro em 381. Sabemos, porém, como o culto de Mithra se infiltrou e veio a exercer tão grande influência nas tradições cristãs, no sentir e nos hábitos da gente comum. Era preciso salvaguardar os antigos símbolos tradicionais sem, de qualquer modo, infringir as ordens do Imperador. De resto, consagrar a tradição do presépio no cristianismo só vinha confirmar as palavras do Evangelista a propósito da natividade de Jesus: “Os próprios animais, o boi e o asno no meio d’Ele, o adoravam incessantemente”, de certo fundadas naquelas outras do antigo profeta Isaías: “o Boi conhece o Senhor e o Asno a manjedoura do seu Mestre”
Que é que vemos nessa bela representação do Presépio, que tem tanto de evocador como de poético e pictórico?
O Menino-Deus está deitado no seu berço de feno. Postados à direita e a esquerda vemos o Boi e o Asno. Para já, podemos adiantar que o feno, as “palhinhas”, expressam o reino vegetal, assim como o Boi e o Asno simbolizam o reino animal e a Gruta o, elemento mineral…
Os cinco reinos da natureza estão no presépio porque os pais de Jesus, Maria e José, simbolizam o elemento humano e o próprio Menino o quinto reino, o reino dos iniciados, dos homens superados, os dwijas ou nascidos duas vezes, os homens tornados divinos, pois expressam as forças divinas.
Para compreendemos a simbólica do Boi teremos de falar sobre o Touro, pois estão, como é óbvio, indissoluvelmente associados.
O Touro é o símbolo da Terra e da Mãe Universal. Expressa o elemento húmido mas, também, o ígneo. Porventura, a sua mais profunda significação se caracteriza pelas funções da fecundação e da criação, do ímpeto Vital, quer em seu aspecto vitorioso, como até no da sua imolação, perpetuada nos ritos pagãos, nomeadamente no de Mithra.
Pela imolação, pelo sacrifício ritual do Touro, os heróis e os deuses solares simbolizam a penetração do princípio feminino pelo masculino. do elemento húmido pelo aspecto ígneo dos raios solares. Vejamos: não procedeu Jesus ao sacrifício primordial do Touro por imolação? Não verteu Ele o sangue na cruz a fim de que se perpetrasse a transferência do húmido pelo ígneo dos raios solares de que era o portador, corno filho solar?
A sigla identificadora de Jesus é JHS. A letra “J” refere-se a Júpiter, “H” a Hermes ou Mercúrio e “S” identifica Saturno. Curiosamente, o Asno é regido por Saturno. Tendo o menino-deus como lateralidade ao Asno e ao Boi, Ele identifica-se com Hermes ou Mercúrio. Contudo o Boi está associado a, Vénus e não a Júpiter como deveria ser, a fim de que se dramatizasse a similitude cósmica, a função conotada com a sigla JHS. Há aqui um mistério que só a intuição pode explicar. Significativamente, os romanos imolavam bois brancos a Júpiter…
Símbolo das forças cósmicas, o Touro surge muitas vezes na iconografia com uma coroa, um cálice, a flor-de-lis, a cruz e mesmo o “R” gótico que corresponde ao termo “Regeneratio”, o que condiz com o que afirmámos atrás: a regeneração do húmido pelo ígneo, função de todos os deuses solares. Quanto à flor-de-lis, sabemos que é o símbolo do Governo Oculto do Mundo, de que falaremos adiante. Não há dúvida alguma acerca da sua relação íntima com a sigla JHS e com o mundo de Agartha.
Mas, diremos, o animal que figura no presépio é um Boi, e não um Touro! É verdade, só que o boi sofreu uma metamorfose, uma “imolação”. O Boi é o Touro “sacrificado”, “imolado”, no sentido que explicámos atrás em relação ao sacrifício primordial do Touro. Por isso o Boi expressa o sacrifício do poder fecundante e instintivo do Touro substituído por outro tipo de fecundação superior, a espiritual. Por isso o Boi simboliza a abnegação, a bondade, a força passiva, a castidade.
A supressão desse poder de procriação instintivo e impetuoso realça, de facto, o seu valor, do mesmo modo que a sexualidade sublinha a importância da castidade. Jasão teve de dominar o Touro para que pudesse prosseguir a conquista do Tosão de Ouro, o que signi6ca claramente que os heróis, divinos ou homens, têm de submeter as suas paixões, de sublimar as suas tendências instintivas antes de conquistar o símbolo da imortalidade.
Se existe animal que nos enterneça pela sua candura e desapego é o Asno. Quando falamos do Asno sempre nos ocorre essa maravilhosa Oração de um dos nossos Mestres excelsos, Aquele que foi conhecido como o mendicante Francisco de Assis. Como seria bom que todos nós nos pudéssemos tomar semelhantes aos asnos… ao grande Asno em que nos movemos, somos e temos a nossa existência…
Existe um crucifixo, conhecido como o de Palatino, considerado burlesco, anedótico, por muitos ignorantes, com uma cabeça de Asno. O Asno, como vimos, tem como atributo Saturno, também conhecido como o “segundo sol” e o o “segundo sol” está relacionado com Jehovah. Isto tem significado porque Saturno é a estrela de Israel, o que explicará que Jesus tenha sido representado, como nas catacumbas de Roma, com cabeça de Asno. De qualquer modo, em muitas tradições o Asno foi considerado animal sagrado. Jogou um papel importante nos cultos apolíneos e dionisíacos. Desde sempre o Asno branco foi montada dos Imortais. Recordemos a entrada de Jesus em Jerusalém! A insistência com que aparece na vida de Jesus não deixa de ser relevante. É montado num Asno que entra em Jerusalém, é num Asno que se desloca com seus pais para o Egipto. O Asno toma parte activa na sua natividade, conjuntamente como Boi, aquecendo-o com o seu bafo.
O Asno é o símbolo da paz, da pobreza, da humildade e também da coragem. A Tradição esotérica não hesita em atribuir-lhe o símbolo do Conhecimento, da Sabedoria das Idades.
A simbólica do Asno reporta-nos ainda para a última lâmina do Tarot, dos arcanos maiores, o Louco. Pois, quando o discípulo pratica e adquire as qualificações do Asno, isto é considerado loucura no mundo ignaro onde cada qual luta egoisticamente pela supremacia, o poder, a riqueza. E é o ignorante que, tal como o cão da lâmina 22, acirra e morde o Louco discípulo que, carregado com o saco do seu sofrimento. da incompreensão e do desprezo, mas também das riquezas espirituais acumuladas, persegue o seu caminho pelos trilhos da existência como “peregrino da vida”.
Dissemos que a gruta simboliza, na cena do Presépio, o primeiro reino da natureza, o mineral. Ora a primeira iniciação dos Mistérios tem correlação com o elemento mineral. É assim que a primeira operação ‘de numerosas cerimónias iniciáticas consiste na penetração numa caverna. A caverna simboliza o regresso ao útero, o “regressus ad uterum”. É talvez por esta circunstância que nas grutas sempre constituíram lugar mágico de cultos e rituais. Da primihistória aos celtas, passando pelos etruscos, tem a Gruta desempenhado um papel de receptor e condensador de energia. Na cultura dolménica, bem próxima de nós, os homens construíram mesmo grutas artificiais a fim de condensarem o fluxo mágico do lugar, as energias telúricas e celestes.
Na pré-história são frequentes as pinturas rupestres onde abundam os signos mágicos de culto e procriação nas paredes das cavernas. No médio oriente, como nos extremos oriental e ocidental. a Gruta significa o arquétipo da matriz materna, as origens, os renascimentos. O próprio .aparelho uterino-genital prefigura uma caverna. Nesse sentido a caverna simboliza a Grande-Mater, o Interior ou âmago que gera o filho e o partureja para a luz. A gruta é uma “Imago Mundi”, uma imagem do mundo e, por analogia, do coração do homem.
Uma das ideias centrais a reter é que é na caverna que se penetra para a realização da cerimónia do renascimento ou segundo nascimento. O tema subjacente, ao mesmo tempo velado, na simbologia da caverna, é que constitui lugar de nascimento em duas acepções: por ela se sai e por ela se entra, para o nascimento, a dois níveis distintos. A caverna permite estabelecer o trânsito entre o mundo espiritual e o profano, entre o “interior” e o “exterior”, entre o mundo habitado pelos heróis, os divinos e os homens. A Gruta simboliza a embocadura, a vagina, por onde se penetra e sai do útero do Mundo.
O axioma alquímico consubstanciado na sigla VITRIOL, uma das chaves mais ciosamente guardada pelos alquimistas, conserva no seu significado críptico a decifração do mistério dos mistérios da Grande Gruta: “Visita lnteriore Terrae Rectificando (regenerando) Invenies Ocultum Lapidem”.
O “Misterium Magnum”, o grande mistério, encontra-se velado aos profanos no âmago da Terra, no Inferior, no Inferno.
Os mitos não são simples legendas sustentadas e transmitidas por povos cuja estrutura mental seria pré-lógica, como pretendem certos eruditos menos avisados, antes ressurgências da realidade disfarçadas pelo “manto diáfano da fantasia”, como diria o romancista..
Não nos surpreende que Ceres, a deusa das colheitas, tenha descido aos infernos em busca da sua filha, nem que Orfeu haja procurado a sua “amada” Euridice através do Hades, se Jesus, logo após a crucificação, também ali desceu antes de ressuscitar ao fim de três dias, consoante reza o Credo dos Apóstolos. Só que a Igreja jamais conseguiu explicar minimamente o que foi Jesus, filho de Deus, fazer ao infernal reino de Lúcifer…
Curiosamente, Lúcifer significa “Portador da Luz” e, segundo a tradição judaica, a sede da imortalidade é uma cidade subterrânea, Salem, a “Cidade da Luz”, donde Jerusalém.
Por outro lado, temos que Jesus nasceu em Belém, numa gruta. O local onde se implantou Belém foi, anteriormente a Jacob, denominado “Luz”. Segundo a enciclopédia judaica, perto de “Luz” havia uma amendoeira (igualmente chamada “luz” em hebreu) na base da qual se abria uma gruta onde se penetrava num subterrâneo que conduzia à própria “Cidade da Luz”, inteiramente oculta. Foi Jacob, o patriarca judeu, que chamou a esse lugar Beith-El. Beith-El, “Casa de Deus” transformou-se mais tarde em Beith-Lehem, “Casa do Pão”, donde o topónimo Belém.
Lúcifer ao tentar Jesus diz-lhe: “Se tu és filho de Deus manda que estas pedras se tornem em pães”. Existe uma relação íntima entre a pedra e o pão, entre a “Casa do Pão” e a Pedra Oculta, como vemos.
Jesus nasceu de uma Virgem, porque Jesus não fora gerado por Maria. É significativo que não haja referência à virgindade de Maria nas epístolas que constituem os primitivos documentos cristãos. Muito pelo contrário, Paulo sempre se refere a Jesus como sendo da linhagem de David. Paulo fala do nascimento de Jesus segundo a “carne”, ou seja, da estirpe de José, seu pai, descendente de David.
A hipertúlia ou culto da Virgem, também conhecido como Mariologia, resultou da necessidade de introduzir o culto de Isis, tão arreigado e popular no Império Romano. Durante os primeiro séculos a Igreja ignorou completamente Maria. Acontece que no incrível concílio de Constantino, em Niceia, os bispos decidiram votar (sim, votar!) por maioria que Jesus era filho de Deus, o próprio Deus. A partir daí, não havia outra alternativa que não fosse divinizar Maria. E para ser divina teria de ser virgem…
Logo, Jesus veio da cidade da Luz, a pedra oculta, ou seja, o Reino de Agartha, através de uma gruta ou embocadura sita em Belém. É preciso entender sob a letra que mata o espírito que vivifica, o sentido oculto das coisas. Maria pode ter tido vários filhos, como hoje se presume, mas nem ela nem José eram efectivamente pais carnais de Jesus. De Jesus mantinha-se Maria virgem.
Mestre Henrique José de Souza referiu, muitas vezes, o mistério das crianças trocadas na face da Terra. sempre que algum filho de Agartha, dos mundos subterrâneos, têm de realizar qualquer missão avatárica entre os homens. Não vou insistir mais.
Trocada a criança Jesus pelo nascituro verdadeiro, o filho de Maria, lhe foi posto o nome aramaico Jeoshua Ben Pandira. Jeoshua, donde Jesus, Jasius, Iess. Jess…
Por que razão, então, o designativo Cristo, de Jesus? Cristo surge-nos como um aposto, uma qualificação, um título do onomástico Jesus.

Segundo Helena Blavatsky, o termo Cristus (ou Krestos) foi empregado já no séc. V antes de Jesus, por Ésquilo e Heródoto, entre outros. Crestes, na Grécia, era aquele que explicava os oráculos, um profeta, um adivinho. Os termos Cristo e Cristãos foram tirados do vocabulário corrente entre os pagãos. Crestus significava na terminologia pagã que o discípulo, uma vez posto à prova, depois de ungido.,se transformava em iluminado, iniciado, Crestus.
Justino, o Mártir, é o primeiro escritor cristão que apelida os seus correligionários de «Crestians”. A derivação imediata do temo Cristo vem do latim “Christus”, que provém da Septuaginta, a tradução grega feita do hebraico antigo. Em hebraico, a palavra que equivale ao étimo Cristo é “Mahsiah”, que significa literalmente Messas, Ungido.
O termo Cristo anda associado, a Ungido, Iluminado. Neste ,sentido literal têm existido muitos cristos. Mas será a altura de perguntar se é esta a conotação que damos a Jesus quando o designamos por o “Cristo”.
Jeoshua Ben Pandira não foi apenas um ungido, um iniciado vulgar, mas a própria expressão da Consciência Crística. Quer dizer, Ele encarnou em Si a Consciência dessa Outra Entidade a que chamamos o Cristo Cósmico, Aquele que veicula a energia provinda do Logos Solar, a do segundo aspecto Amor-Sabedoria.
Jesus aparece ao Mundo como um avatara de Vishnu, como um Messias portador da nova dispensação para todo o ciclo zodiacal de Piscis. Vishnu é a segunda hipóstase da Trimurti indiana Brahamã-Vishnu-Shiva. Expressa o raio do Amor-Sabedoria. É por isso que, no Presépio, Jesus é figurado entre o Pai e a Mãe, pois aí, os três representam a Santíssima Trindade, que corresponde à Trimurti indiana e às trindades de outras tradições religiosas, como a egípcia, por exemplo, Osiris-Isis-Horus.
José, o Pai, simboliza o raio do Poder; Jesus, o Filho, o raio do Amor-Sabedoria; finalmente Maria, a Mãe, o fogo do Espírito Santo, o raio da Actividade Inteligente. E não é por acaso que José era “carpinteiro” .O carpinteiro simboliza, tal como o mação, o construtor-criador, Deus-Pai. Um coloca pedra sobre pedra, outro viga sobre viga…
Foi ao Avatara do Cristo Cósmico que os Reis Magos vieram prestar a sua homenagem. Existe uma relação esotérica entre a estrela Sirius e o Cristo Cósmico, E, nessa altura, aquela que é conhecida como estrela do Oriente flamejava no céu da Judeia. Sirius estava na linha do meridiano e a constelação Orion, conhecida, repare-se, pelos astrónomos orientais como “Os três Reis Magos”, encontrava-se nas proximidades. A constelação Virgo, Virgem, elevava-se no Oriente e a linha da elíptica, a do equador e do horizonte se uniam, todas na mesma constelação.
Esta extraordinária configuração astral estabelece relacionações por demais evidentes com os símbolos de que temos tratado e com os Reis Magos.
No reino de Agartha, o País da Luz donde provém o Cristo, é onde se encontra a Pedra, o Governo Oculto do Mundo, presidido pelo Rei do Mundo, o Kumara Melquisedeque e suas duas colunas Mahima e Mahanga. Nesta tríplice representação estão expressos os atributos do Governo Oculto do Mundo. Ao Brahamatmã pertence a plenitude dos dois poderes expressos pelas suas colunas, o sacerdotal e o real. Uma vez manifestados, Mahima assume o poder sacerdotal e Mahanga o poder real.
As três personagens conhecidas como os magos do oriente não são mais do que a representação desta trindade agartina do Governo Oculto do Mundo, avalizando o nascimento de Jesus como o Salvador e Messias, o Avatara do Cristo. Assim, Mahima depõe aos pés de Cristo o ouro e saúda-o como Rei; Mahanga oferece-lhe incenso e saúda-o como Sacerdote; Brahamatmã dá-lhe a mirra, perfume de Vénus (Sanat-Kumara é oriundo de Vénus), como bálsamo de incorruptibilidade e homenageia-o como Profeta, como oráculo do Deus-Pithio, como Pythocrestos.
A outro nível, Mahanga é o símbolo de toda a organização material do cosmos; Mahima representa a Alma Universal e Brahamatmã o apoio dos egos no Espírito do Logos. Segundo Ossendowski, Mahatmã conhece todos os acontecimentos futuros e dirige as causas desses eventos. Quanto a Brahamatmã, Ele pode falar com o Logos face a face.
Como maré de poesia e força, o fluxo e o refluxo do Amor do Cristo que encarnou em Jesus, flui em cada Natal que passa. Sem o afluxo da energia de Cristo não poderíamos viver. Obedecendo à lei cíclica a Terra se impregna das suas vibrações. Como sempre, o drama cósmico da Vida se desenvolve, se dramatiza anualmente na Humanidade na sua árdua peregrinação pelo itinerário de lo. Pois até o sublime Ser que é Cristo se sujeita, em sua grande compaixão, à lei, fazendo’ descer à Terra o seu fluxo de Amor por um acto sacrificial.
Ele sempre vem, mas são poucos os que O reconhecem.
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Por Olímpio Neves Gonçalves, in “Jornal Quinto Império”, nº1, Janeiro 1991; originalmente publicado na Revista Graal nº3 de 1982, Comunidade Portuguesa de Eubiose




Apesar de longo o texto é muito bom. Deixo aqui no entanto algo que escrevi sobre o NATAL PAGÃO OU NATAL CRISTÃO? no meu Blog Alvorecer para vossa apreciação:
“Lembro-me do meu tempo de criança em que acreditava piamente num velho de barbas brancas, vestido de vermelho, que nunca vi descer pela chaminé de minha casa (nem sei como conseguiria isso porque não a tinha) mas deixava sempre um brinquedo no sapatinho junto ao pinheiro enfeitado e uns doces que me faziam gostar muito dele, até ao dia em que me disseram que eram meus pais que faziam isso e fiquei decepcionado.
Muita gente adulta hoje sabe que é assim mas continua alimentando a imagem do velho gordo e anafado (que já bebe coca-cola e tudo) e distribui presentes a toda a gente (comprados nas grandes lojas ou hipermercados), sendo ele o favorito das criancinhas que nem sabem ao certo quem foi o Menino Jesus, aquele que nasceu pobre e não deu prendas a ninguém, sendo até açoitado em adulto e terminou crucificado.
De resto, nem se sabe em que dia teria nascido e sido visitado pelos “Reis Magos” que lhe levaram presentes pois que a data já foi mudada por diversas vezes ao longo do tempo e variava entre o dia 6 de Janeiro, 25 de Março e 20 de Maio do 28º ano de César Augustus, e também 28 de Março, 20 de Abril e 17 de Novembro do ano 3 d.C., conforme consta na Enciclopédia Britânica “Christmas”.
Por fim atribuiu-se o dia 25 de Dezembro como a data mais provável do seu nascimento, e esta só foi estabelecida no século IV da nossa Era (cristã) que também não foi por acaso pelo seu simbolismo, pois é nesta altura do ano, à meia-noite, que se estabelece uma certa corrente de energias cósmicas no nosso Planeta quando a Constelação de ‘Virgem’ desponta no horizonte celeste e a de ‘Orion’ (3 estrelas alinhadas) representam todos os anos o nascimento do Menino deus na Terra, recebido pelos 3 Reis Magos.
Mas esoterismos á parte, voltemos à realidade do Natal Pagão (o do consumismo), aquele que as crianças e adultos gostam mais pela sua festividade, seja nos lares ou nas ruas onde se cria uma certa magia de luzes e cores, tons, cheiros e sabores, havendo mais predisposição para a ‘caridade’ (o lado cristão) pelo espírito da Solidariedade.
O pior de tudo é sempre o grande morticínio de animais que por esta altura do ano se realiza com o abate de milhares de perus, patos, porcos, borregos, etc, fazendo desta festa sangrenta cuja tradição se introduziu na Europa (vinda da América) no século 19 e teve origem num culto xamanístico do nordeste da Sibéria há milhares de anos, mas não envolvia sacrifício de nenhuns animais. Isso acontece hoje apenas por interesses comerciais.
Penso que se poderia tornar mais belo o Natal (pagão ou cristão) se não houvesse este lado negro em sacrificar milhões de seres da Criação para o festejar…
Fica aqui minha reflexão!
Rui Palmela