Tertúlia Hermética – Depois da Vida ou Crossing Over

Nov 11th, 2011 | By | Category: Lead, Tertúlia Hermética

Realizou-se no dia 9 de Novembro de 2011 uma Tertúlia Hermética dedicada ao tema “Depois da Vida – Crossing Over”, acerca dos mediuns psíquicos da televisão. Como é habitual, começámos a Tertúlia com o visionamento de alguns clips onde se podiam ver, entre outros, John Edwards e Anne Germain em pleno platô de televisão, falando com os ente queridos já partidos de vários dos presentes, entre eles uma figura pública. Antes de passarmos à discussão um dos tertulianos presentes na sala (José [nome fictício]) disse que tinha estado no programa de Anne Germain e rapidamente se encontrou o clip em causa no Youtube e pudemos ver as circunstâncias particulares da sua participação.

Abriu-se de seguida a discussão. O José contou que foi a pedido da filha que foi a um casting para o programa de Anne Germain. Esse casting deu-se num hotel em Lisboa onde estava muita gente e onde lhe pediram que preenchesse alguns dados pessoais, sempre lembrando que não desse dados que pudessem revelar com quem esperavam contactar no “outro mundo” durante o programa. Sentiu, por isso, que não havia nenhum truque. Passados uns três meses contactaram-no para ir à gravação do programa. E foi já lá que foi surpreendido com a escolha da medium, que se dirigiu a ele e veiculou diversa informação correcta (impossível de conhecer de antemão, segundo nos disse) acerca de pessoas que conhecera que haviam já morrido. À pergunta feita por nós se tinha noção de ter sido manipulado, respondeu claramente que tal não lhe parecia, até porque a identificação de um amigo de infância havia sido correcta ao detalhe.

Deste modo, com este testemunho, o debate passou à tentativa de sistematização do tema. Foram propostos alguns pressupostos nos quais se baseiam este tipo de programa, os quais se iriam debater de seguida. São os seguintes:

1 – Há uma vida depois da morte ou uma continuação, sendo que a morte não é o fim absoluto

2 – Quando alguém morre a sua “alma” ou o seu “espírito” viaja para um lugar de luz.

3 – Nem todos os espíritos ou almas completam a jornada e podem ficar suspensos num limbo anterior ao lugar de luz.

4 – O medium pode invocar/ouvir/sentir/falar com/incorporar/etc., esse espírito ou alma receber dele mensagens e dar-lhe indicações

Todos os presentes concordaram que estes pressupostos estavam na base dos programas de televisão em discussão. Passou-se então à análise de cada um deles.

1 – Acerca de existência de vida depois da morte, vários dos presentes tomaram a palavra falando de experiências pessoais ou de amigos próximos, nas quais estiveram em situações extremas de perigo, quase morte ou mesmo Experiências Próximas da Morte (visão de um túnel, paz profunda, uma “presença”, etc.). Aos poucos foi-se percebendo que as descrições daqueles que passaram por este tipo de experiência, embora tenham alguns elementos relativos às suas culturas e religiões (por vezes aparecem guias que são homens de santidade, outras vezes são familiares já partidos, outras uma vaga presença de alguém), quase todos os relatos apresentam um padrão com diversos elementos recorrentes, entre eles a sensação de flutuar o túnel com uma luz muito forte no final, a sensação de paz, a consciência de estar a olhar o próprio corpo morto desde uma posição elevada, as cores intensas mas calmas, etc. Isto faz pensar que o processo de morte desperta um mecanismo mental de “shut-down” (como um dos tertulianos referiu comparando-o com o de um computador a encerrar) cujo programa é transversal a todos os seres humanos e que segue determinados passos sequenciais, os quais são interpretados de modos diferentes em culturas diferentes, mas cuja estrutura é idêntica. Seria, aliás, estranho, que um dos processos mais comuns no planeta (mais comum do que as marés, do que a chuva ou os tremores de terra), como é a morte que ocorre a 100% dos organismos vivos e se verifica em milhões de ocasiões diariamente, estivesse votado ao caos e ao acaso numa natureza onde tudo está estruturado e regido por leis precisas. A probabilidade de o processo de morte ser aleatório é muito pequena. A probabilidade de ter um padrão comum universal sujeito a leis (ainda que desconhecidas neste momento) como estão sujeitas a gravidade, a luz, a energia, os átomos, etc. é muito elevada. Por isso encontrarmos os mesmos elementos em experiências próximas da morte de Budistas e de Cristãos, de Muçulmanos ou ateus.

A avaliar pelos relatos ouvidos e pelos estudos citados (há inúmeros livros sérios sobre este ponto), parece seguro que a consciência humana (e a consciência de si mesmo) não se extingue com a morte. Não o podemos afirmar com uma garantia de certeza absoluta pois ninguém que tenha morrido retomou a consciência do seu próprio corpo-físico de novo para contar como foi. Quando isto acontece o indivíduo não morreu. Voltou à vida. Não ultrapassou aquela barreira a partir da qual não há regresso. E é o que está para lá dessa barreira que nos intriga. Todas as experiências próximas da morte são experiências de morte apenas no limite, sem se realizar a morte em si mesma. Por isso o que podemos afirmar em absoluto é que a consciência não se extingue com a extinção dos sinais vitais tal como os entendemos à luz da ciência hoje (ou seja, quando os órgãos vitais como o coração, os pulmões e o cérebro deixam de apresentar actividade mensurável). A consciência mantém-se mesmo sem suporte físico vital. Isto é uma afirmação absolutamente segura dados os casos conhecidos. Portanto, a consciência não depende do batimento do coração nem da actividade eléctrica do cérebro. Mesmo quando estas são residuais ou inexistentes durante vários minutos, a consciência permanece activa e contínua como um fio infinito. A probabilidade de que se venha a extinguir depois, quando sabemos que a morte clínica do corpo não a afectou, é mínima. Dito isto, os presentes por unanimidade consideraram ser de uma probabilidade muito elevada que a morte física de um corpo não implique o fim de uma parte não-física (a que passamos a chamar metafísica) do ser humano. Portanto o primeiro pressuposto foi considerado como provavelmente verdadeiro.

2 – Ao passar ao debate sobre o segundo ponto (quando alguém morre a sua “alma” ou o seu “espírito” viaja para um lugar de luz), começou por se discutir a terminologia. É de facto um tema muito complexo, que se torna quase impossível de tratar quando a terminologia obscurece o que deve ser claro. Infelizmente as palavras “espírito” e “alma” são usadas nos programas de TV de modo intercambiável, sendo que o mesmo se passa em algumas línguas. Em Inglês, por exemplo, “mind” pode significar “mente”, como pode significar “espírito” ou mesmo “alma”, dependendo do contexto. Há culturas nas quais a “alma” é a parte mais elevada (ou onde há “almas penadas” a vaguear por aí), enquanto em outras o medium incorpora “espíritos” dos mortos. Quando estamos em Tertúlia, uns falam em “espírito”, mas alguns dos que escutam pensam em “alma”. A confusão é total.

Deste modo, de maneira a resolver o problema para aquela noite, foi proposto substituir ambos os conceitos por um outro: “alma” ou “espírito” passariam a ser designados como “parte metafísica” (ou “para lá de física”) em complemento ao “Corpo” (parte física). Para os propósitos da Tertúlia esta designação seria suficiente.

Alguns tertulianos expuseram a sua dúvida sobre a “viagem” da parte metafísica do ser até à luz. Num instante todas as concepções morais e religiosas vieram à tona. Noções como “inferno” e “céu” impuseram-se no debate. A parte metafísica viaja para a luz, dependendo da vida que cada um levou, assim se discutiu durante algum tempo. Também se falou na reencarnação e na viagem ser dependente de ter de regressar à vida ou não. Para voltar a dar ordem num assunto que se aproximava perigosamente do caos total outra vez, em que cada um tinha a sua concepção acerca da “viagem”, propusemos outra alteração metodológica. O termo “viagem” não é literal, pelo que o pressuposto deste tipo de programas de televisão é de que a parte metafísica do ser deixa de estar ligada ao corpo e passará a estar numa “luz” indefinida, sem significado moral (ao ser “luz”, não é nem céu nem bem, é só luz). E a passagem de um estado ao outro, intuído pela consciência como uma “viagem”, um túnel, um prado, etc., é um processo que, para este pressuposto, não interessa à discussão. O que queremos determinar é se consideramos provável que “quando alguém morre a sua parte metafísica transita para um lugar de luz”, a que chamaremos “ponto x” para retirar a percepção moralista que “luz” possa dar e a percepção geográfica que “lugar” possa significar. A dificuldade do tema é precisamente retirar os nossos preconceitos da análise e procurar entender o fenómeno (neste caso a morte e mais especificamente este pressuposto sobre ela) sem assombros nem distorções interpretativas prévias. Colocado o problema neste plano pudemos concluir que é muito provável que, sendo a morte uma separação entre duas naturezas no ser humano (o corpo e a parte metafísica), a parte metafísica transite para um ponto “x” que não é no mundo físico.

3 – O terceiro pressuposto advoga que nem todas as partes metafísicas completam a transição entre a quebra de ligação ao corpo físico e o ponto “x”. Também aqui foi difícil manter a discussão no plano dos princípios sem que se juntassem asserções religiosas e morais. A discussão andou alguns minutos à deriva mais uma vez entre purgatórios e pesadelos, entre livros dos mortos do Tibete e do Egipto e o Nirvana. O pressuposto é simples e claro. Estando estabelecido pela discussão que a morte é o momento em que duas dimensões do ser humano se separam, uma física e uma metafísica, estando avaliado como muito provável que a dimensão metafísica transite para um lugar “x” indeterminado onde não tem ligação à parte física, qual é a probabilidade de um processo destes ser de tal modo aleatório e vago na natureza que haja uma percentagem grande de casos em que isto não acontece? Por força da mesma lógica que nos levou a admitir altamente provável que o acaso jogue um papel menor no que quer que seja o pós-morte, é igualmente altamente improvável que a transição para o estado “x” possa não ocorrer, perdendo-se “pelo caminho” um número indeterminado de partes metafísicas. Após muita discussão e várias opiniões, chegou-se à conclusão mais ou menos genérica que o terceiro pressuposto é muito provavelmente falso. Não é muito provável que na transição da parte metafísica entre estar fixada (ou ancorada) por um corpo físico e estar liberta desse corpo físico esta se “perca” ou possa não chegar ao estado que é seu naturalmente quando está separado da parte física. Deste modo, a noção de que haja “espíritos” a pairar num limbo indefinido é pouco provável. O estado de morte, tanto quanto nos é dado a perceber, é não/sim, ou se está vivo ou se está morto. Não parece admitir intermédios. E não parece haver lugar na natureza a uma incerteza desregulada e caótica acerca do processo em si. Está-se vivo (cá). Ou está-se morto (lá). A probabilidade de “pairar” entre o “cá” e o “lá” é insignificante.

4 – Decorre do ponto anterior necessariamente que a probabilidade de alguém contactar à vontade num platô de televisão e só por assim o querer, a parte metafísica de uma individualidade que já não está viva (e por isso que já chegou a “x”) é tão diminuta que é desprezível. Note-se que todos teriam de estar no “limbo” (o mesmo que é pouco provável existir) para poderem ser chamados segundo a vontade do medium. Quem completasse a transição não poderia voltar sem quebrar uma ordenação cósmica que não admite excepções à gravidade e ao modo como se comporta a energia, porque motivo pensamos que pudesse admiti-las no que se refere a um ponto tão fundamental como o Ser e os seus estados? Se isso fosse possível, toda a ordem universal que é visível, quantificável, verificável, aparente e real seria igualmente sujeita a manias e excepções várias para brilhar em platôs televisivos. Esta possibilidade é de tal modo ridícula que não nos compete imaginá-la.

Assim, a probabilidade de ser verdadeiro o quarto pressuposto é  quase nula. Contudo o fenómeno existe. Há pessoas que ouvem as vozes dos já falecidos, há pessoas que sentem a sua presença, cheiro, até o toque. Haverá uma explicação para este fenómeno, tendo em conta o que a Tertúlia acabou por concluir? Claro que sim. Mas para ela, a sugestão que fizemos foi realizar uma nova Tertúlia acerca só desse ponto, já que o tema da noite eram os videntes da TV e os seus truques. E a única coisa que tínhamos conquistado com mais de duas horas de debate era que, por assim dizer, vimos o mágico serrar a mulher ao meio, mas sabemos agora por pensar se é mesmo possível serrá-la e ela continuar a sorrir, que não, que há truque. E que truque é esse?

Passámos então a lembrar que o que vemos na televisão é show-business. Ou seja, é espectáculo e é negócio. Não é nem filosofia nem religião. É, no limite, entertainment. Visa fazer-nos ficar presos ao écran, porque a nossa atenção vale dinheiro (na forma de anúncios publicitários) ao canal que nos retiver mais tempo. Por isso, estes programas seguem as regras da televisão. Apelam à emoção e à lágrima. Apelam à ilusão. Apelam ao sentido de novela (ou novelo), em que se coloca um fio de fora e se vai puxando devagar para fazer render a coisa, como quem desenrola um novelo de linha. É um espectáculo, um circo, com truques, cenários de faz-de-conta, palhaços e animais. A única diferença é que ali a audiência que pensa ir ver o circo, acaba por participar nele e ser o foco de atenção.

No que se refere aos mediums, eles têm as suas técnicas. Anne Germain possui uma equipa de pesquisa excelente. Nos três meses que medeiam entre o casting e a gravação do programa essa equipa vai buscar todos os dados pessoais dos aprovados no casting. Basta um nome, filiação, números de contribuinte e BI, por exemplo, para retirar rios de informação quer na internet (vide: facebook, entre outros), quer em sites, entidades oficiais, etc. Um BI cujo estado civil seja viúvo, é o ponto de partida para uma pesquisa que em pouco tempo dá não só o nome do cônjuge falecido, como a causa da morte, o que faz brilharetes nos platôs. Depois é só completar com as generalidades “está a mandar-lhe um abraço muito forte. Diz que está bem, num lugar fantástico”.

Outra técnica usada é a do “Cold Reading” , cujos resultados são impressionantes para quem não percebe a técnica desde o início. A maior parte de informação é dada pelo sujeito e não pelo medium. Esta técnica é muito próxima à da “Advinhação do Funil”, pela qual o “medium” começa por fazer afirmações vagas e amplas (de modo a ressoaram num conjunto grande de casos) e vai sucessivamente apertando as suas afirmações à medida que o público as vai concretizando. Por exemplo “Tenho aqui um espírito de alguém começado por M, Ma, Maria, Manuel, Mar?” logo alguém que foi ao programa na esperança de contactar um falecido por esse nome levanta a mão: “É Maria”, diz inocentemente. O “medium” diz “sinto uma presença feminina” (quando há poucos segundos era só uma letra), “e já tem alguma idade”. Ao assentimento de cabeça do sujeito, conclui-se dependendo da idade deste “é uma avó” ou “é uma mãe”. Chama a atenção porque razão o tal espírito não disse logo que era uma avó, e só segredou “M, Ma, Maria, Manuel, Mar”…

Eis um exemplo bem desmontado:

Note-se que Anne Germain recorre a uma técnica mais preparada, pois John Edwards tem tendência a fazer espectáculos ao vivo com público aleatório, por isso usa o cold reading, mas Anne Germain prepara os programas com meses de antecedência e a sua equipe de produção tem dados extensos sobre os convidados conhecidos e sobre o público, que passou um processo de selecção e casting.

Estamos, portanto, no domínio da exploração vergonhosa das expectativas e das emoções daqueles que perderam seres queridos aos quais ainda tinham muito que dizer. Não é um Circo divertido, mas sim um espectáculo degradante, em que se dão falsas esperanças e se mente de modo descarado como meio de ganhar a vida. É um exercício em tortura psicológica humana doentia dizer a uma mãe que perdeu um filho num acidente que ele está num lugar melhor. Que lugar melhor para um filho é melhor do que estar ao lado da sua mãe? Que mensagem é essa do “resigna-te e fica feliz, que eu aqui estou bem, mesmo estando longe e sem te dizer nada a ti, mas falando com esta senhora como se fossemos colegas de carteira, estou bem à brava, mãe, agora tchau que tenho que ir”? Em que é que isto pode justificar o tal acidente em que morreu? Qual o efeito de choque posterior de uma coisa destas?

Por algum motivo todos os membros do público assinam um “disclaimer” sobre o tratamento psicológico posterior que é dado pelo programa se for pedido (prudente medida aconselhada por advogados preocupados com as consequências legais que tal degradação humana pode provocar). A palavra mais ouvida pelos mediuns é “closure”, que se pode traduzir livremente por “encerrar o assunto”. As morte é quase sempre inesperada e as pessoas necessitam encerrar a dor de ter perdido um familiar próximo. A melhor forma de o fazer não é MENTINDO! Não é chamá-las a um circo televisivo e encantá-las com ilusionismo psicológico. É profundamente paternalista no pior sentido do termo, passar um atestado de menoridade mental ao espectador e ao sujeito destes truques de cabaré, dizendo que o que se faz é dar “closure” às pessoas, que assim arrumam o assunto no seu íntimo. Arrumam até que dia? Que competência tem um saltimbanco pantomineiro para fazer trabalho de cura psicológica???

É por isso que eu adoro este vídeo:

 

One Comment to “Tertúlia Hermética – Depois da Vida ou Crossing Over”

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